Um disco para cantar junto: eliminadorzinho retorna com a autenticidade de “eternamente,”

Atualizado em: janeiro 22, 2026 às 7:22 pm

Por Arthur Coelho

O eliminadorzinho ganhou destaque na cena alternativa brasileira nos últimos anos com músicas expressivas, inesperadas e também divertidas — elementos coroados pelo lançamento de “Rock Jr” (2021), disco que marcou o auge do trio até então. Anos se passaram e a banda se concentrou mais nas apresentações ao vivo, mostrando ao público canções inéditas — quase como demos tocadas no palco, experimentações em processo. Aos poucos, os ouvintes começaram a suspeitar: novidades estavam a caminho.

E a intuição se confirmou. Após quase quatro anos desde o disco de estreia, o trio retornou oficialmente com “Eternamente,” —  novamente lançado pela Cavaca Records. O novo trabalho se sustenta sobre duas características centrais: reflete as transformações e vivências acumuladas pelo grupo nesse intervalo e apresenta uma versão mais ampla e ambiciosa do eliminadorzinho. Essa expansão não se limita à maior duração ou ao número de faixas, que pulou de nove para quinze. Ela se manifesta também na dinâmica interna da banda, que fragmenta os vocais entre Gabri Eliott (guitarra), Tiago Schützer (bateria) e João Haddad (baixo), além de dividir a produção com outros três nomes: Ruben Adati, Gabriel Oliveri e Calvin Voichicoski.

O resultado é um disco em que as múltiplas facetas do amor aparecem de forma dividida, intensa e diversa, esbanjando influências que passeiam por Cloud Nothings, Dinosaur Jr, Lupe de Lupe e Sophia Chablau, entre muitos outros nomes, mas ganham identidade própria na união criativa do trio. Cada uma das 15 faixas soa como um quebra-cabeça montado coletivamente — algo que só o entrosamento de quem se conhece desde a infância poderia permitir.

Em alguns momentos, o eliminadorzinho brilha ao apostar em um rock alternativo de ganchos pop, como na divertida e caótica “A cidade é uma selva”, que traduz de forma maluca sua energia urbana. Em outros, surge uma veia mais punk-sentimental, presente em “Cinza e Carmesin” (com Ruben Adati), “Vaivém” e na excelente “Golpe Baixo” (com Marchioretto) — um dos grandes destaques do álbum. Há também um lado mais intimista e sensual espalhado pelo disco. “Sopa e café” apresenta essa faceta com delicadeza e remete à Hyperview, do Title Fight, enquanto “Querubim” se destaca pela linha de baixo envolvente em uma canção sobre autoestima e amor como identidade, atravessada por guitarras revoltadas.

Nas faixas citadas, a diversidade sonora funciona bem e amplia os limites do eliminadorzinho. Em outras, porém, a produção com forte inclinação ao shoegaze — estética quase onipresente na cena brasileira atual — acaba deixando o som excessivamente opaco e fechado, o que por vezes inibe a versatilidade do grupo e dificulta a distinção entre algumas músicas. O ponto positivo é que essa limitação não se repete ao vivo. Nos shows, a energia constante do trio potencializa as canções, como já acontecia em “Rock Jr“. Tudo indica que “Eternamente, seguirá o mesmo caminho, mantendo-se espontâneo e criativo no palco.

Parte dessa vitalidade vem do próprio processo de composição. Muitas músicas nasceram de ensaios e jams improvisadas, com contribuições específicas de cada integrante. É o caso da traição narrada em “Viação Andorinha”, da paixão em “Blondie (Menina do cabelo amarelo)”, de “Tema do Centro da Terra” — homenagem ao espaço homônimo localizado em Perdizes (SP) — e do já citado single “A cidade é uma selva”, que conta com um videoclipe tão divertido quanto a música.

Outras faixas surgiram de um processo mais longo e elaborado, explorando diferentes tipos de catarse. “Não me deixe no almoxarifado” carrega um tom melancólico, sem perder a rebeldia de quem se recusa a ser esquecido. “Alguma hora você vai ter que tirar a roupa do varal” flerta com o universo do Nirvana ao abordar arrependimentos, enquanto “Chap chap chuap pop” coloca o disco na fase final com ganchos pop irresistíveis.

Seja qual for o caminho, “Eternamente, é um disco tomado pela pura cantoria — daquele tipo impossível de não gritar junto nos shows. E, acima de tudo, apresenta os novos rumos do eliminadorzinho sem deixar que a autenticidade criativa do grupo se perca por outras vias.

 

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Arthur Coelho
Jornalista, baterista e apaixonado por música de todo tipo, principalmente se tiver gritaria. Também conhecido como Art ou Tuco.

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