Atualizado em: janeiro 22, 2026 às 7:26 pm
Por Guilherme Costa
A parte internacional dos Melhores do Ano do Um Outro Lado da Música chega ao fim, com uma escolha que foi definida no momento em que eu ouvi o disco. Antes de comentar sobre o personagem do dia, vale destacar o quanto o Chile tem tido protagonismo no site (e anteriormente, quando o UOLDM era apenas uma página no Instagram); são grandes bandas que eu conheço anualmente — parece que não sai nada de ruim de lá — e que sempre estão no especial de fim de ano.
Bom, voltando para os destaque de 2025, o Niños del Cerro não fez muito alarde para o lançamento do seu quarto disco de inéditas, que saiu no dia 10 de outubro, com apenas três prévias sendo liberadas (“Tembló”, “Canto al Mediodía” e “Seis de Enero”). “Alma Tadema” saiu apenas três anos após o seu sucessor, “Suave Pendiente”, e mostrou a banda — formada por Simón Campusano (guitarra e voz), Ignacio Castillo (guitarra), Felipe Villarrubia (baixo) e José Mazurett (bateria) — mais dispostas a criar melodias mais suaves, limpas e (por quê não) pops.
O início, entretanto, é uma ponte com os seus álbuns anteriores — sobretudo o segundo, “Lance” —, com a sorrateira e explosiva “Príapo (o Sísifo otra vez)”, que conta com a participação de El príncipe idiota, cuja atmosfera é permeada por algumas paredes de guitarras (ainda que tímidas) e Simón Campusano rasgando a sua voz. Após isso, o “novo” Niños del Cerro entra em ação!
“Tembló”, um dos singles promocionais, é a segunda faixa do álbum e é a responsável por iniciar a intenção de “Alma Tadema”. Embora haja um esforço para manter as guitarras fortes e estridentes, o seu cerne passa por um baixo pulsante mas coeso, a presença de um piano marcante e a voz serena de Campusano. A sequência, “Canto al Mediodia”, tem o protagonismo dividido entre o violão e o piano na construção da atmosfera contemplativa, que é impulsionada pelos versos: “Ontem estive ausente, saí para estender os lençóis brancos/ E me vi buscando calma entre as dobras/ Por que tanta pressa?, pergunto/ Pare, desta vez e escute/ Algo está escondido ali”.
Até aí, o quinteto chileno apresentou uma nova roupagem das suas músicas, mas nada de muito distinto das influências Indies/ alternativas do que vimos e ouvimos nos três álbuns anteriores. Isso muda com as faixas “Pieza Oscura (Para Martín)” e “Aluvión”; enquanto a primeira caminha entre um Folk pop, com muita presença de piano, a segunda é mais agridoce (até pela letra: “Encontrei seu bilhete grudado na toalha de mesa/ As promessas do dia, tarde demais de novo./ Nossa casa silenciosa no meio do mês”), com a atmosfera sendo construída pela dupla de guitarras (que, nesse tipo de música, geralmente têm camadas de synths em destaque). É uma das músicas mais sensíveis do álbum!
“Buen Dormir” é outro exemplo de como o peso do Niños está mais consonante, com as guitarras — cheia de efeitos — estando longe de flertar com o noise rock, muito por causa do baixo e bateria estarem mais “tranquilos”. Há baladas que colocam o álbum num lugar mais acessível, daquelas bandas que conseguiram expandir o seu público para além dos limites roqueiros. É pensando nisso que eu cito “Vinca” como um dos grandes trunfos do álbum; sua construção lembra em muito a atmosfera do U2 dos anos 2000 (embora haja um solo bastante ruidoso), que influenciou grupos como o Coldplay e o Keane. Em outros casos, o grupo conseguiu coexistir entre o antigo e o atual (pensando nas suas próprias referências) nas faixas “Narciso Negro” (ainda a minha favorita do álbum) e “Cada cosa en su lugar” — esta, a mais “sintetizada” do álbum.
Com quatro discos de inéditas, o Niños del Cerro está no grupo de bandas que nunca entrega um trabalho repetitivo. O DNA do quinteto está ali, mas, como em seus três álbuns anteriores, o grupo — em grande forma — trouxe novas texturas para a sua rica discografia!
O Niños del Cerro está entre os Melhores do Ano do Um Outro Lado da Música!





