Atualizado em: janeiro 22, 2026 às 7:20 pm
Por Guilherme Costa
O mundo da música alternativa sempre teve momentos em que foram chacoalhados por grandes cantoras que se posicionaram num lugar de difícil identificação, resultante de um trabalho extremamente autêntico. Posso citar a Bjork, Tori Amos, PJ Harvey (na década de 90), Emma Ruth Rundle e Chelsea Wolfe (já na segunda década dos anos 2000), como grandes artistas cuja sonoridade pode até não ser algo novo, mas que mesmo assim há uma certa dificuldade em encaixá-las em algum rótulo.
Foi isso que senti quando eu ouvi o novo disco da cantora chilena Martina Montaldo, “Ermitar”, lançado no dia 26 de setembro, via Sello Fisura. O álbum foi o primeiro da musicista sob o seu verdadeiro nome, sucedendo os trabalhos sob o nome de Martina Lluvias, que rendeu um álbum de inéditas e dois EPs.
Para a sua nova e autêntica fase, a cantora se refugiou em seu quarto para compor o seu novo trabalho, dando total significado ao seu título, transformando o sentido de eremita (do qual um dos significados é indivíduo que foge ao convívio social, que vive sozinho) em verbo. Ela comentou, em comunicado à imprensa, sobre as dificuldades e recompensas que tal atitude afetou a sonoridade de “Ermitar”:
“Foi desafiador e frustrante às vezes: ficar pensando em ideias na privacidade do Ableton no meu PC, onde meu foco principal eram as falhas e os medos. Aos poucos, comecei a gostar dos resultados, comecei a me ver refletida nos sons. Além disso, eu tinha a confiança do Ismael como produtor responsável. Houve altos e baixos de observar e aceitar que eu gostava do que estava ouvindo, de como o álbum estava se desenvolvendo. Isso se reflete nas músicas, através de sons que não estavam na minha imaginação antes e que soam como uma exploração de novos lugares ”
Diferentemente de “Recopilatorio”, o novo álbum habita numa atmosfera mais intimista, introspectiva e até mesmo melancólica, cuja paisagem é realçada pela predileção por instrumentos acústicos. A relação com as artistas citadas está justamente nessas paisagens opacas criadas no álbum; e é assim que ele abre com a faixa “¿Qué vas a hacer?”, cuja guitarra dedilhada poderia construir uma atmosfera mais austera mas é combatida por camadas eletrônicas oníricas, ao passo que Martina canta “Você juntou os pedaços espalhados pelo seu quarto/ Você nunca pensou que não conseguiria juntá-los novamente/ Você se despedaçou para recomeçar/ Mas a solidão não é para você”.
Nas três faixas seguintes, a guitarra dá lugar ao violão que ora é protagonista (“Suave Brisa” e “Nuestro Invierno”), ora divide o front com as camadas eletrônicas — como é o caso de “Llanto Amargo”, faixa que ganhou uma tonalidade entorpecente ao passo que Martina solta as suas emoções amargas.
Com oito faixas e pouco mais de 33 minutos de duração, Martina e Ismael Palma (produtor do álbum) criaram paisagens extremamente propícias para quem está num período de reclusão ou de desaceleração da vida corrida das grandes cidades. Isso poderia tornar o álbum mais denso, porém há um senso pop nas melodias que percorrem o álbum (talvez as camadas eletrônicas) que tiraram um pouco do peso da solidão (e de encarar o próprio reflexo). Se há espaço para “Llanto Amargo”, há também espaço para curtir a brisa do mar, a passagem do tempo e a tranquilidade do silêncio, como sugerem as faixas “Salir a caminar” (um pop rock que se aproxima de “Recopilatorio”) e “Mar”.
O disco é encerrado da mesma forma que o dia, com Martina cantando “feche os olhos/ é hora de dormir/ a calma te envolve/ já chega por hoje/ sinta o luar”, concluindo parte de uma jornada rumo a si mesma. O caminho, como é comum na vida de todos, não é tão simples ou exclusivamente gratificante, e “Ermitar” se propôs a construir as trilhas para o vai e vem da nossa existência.
Martina Montaldo está entre os Melhores do Ano do Um Outro Lado da Música!





